Castro Lima

Crônicas, contos e causos

Textos

Ô homem burro
Juventino é um homem como outro qualquer. Pensando sempre no futuro. Guardando hoje para ter no amanhã. Desde que se entendeu por gente, começou o sofrimento. Obrigado a trabalhar bem novo, já mostrava sua sovinice. Fazia horas extras até dizer chega. Esforçava-se para conseguir o máximo para poder usufruir melhor no futuro. Deixava de tomar uma coca-cola para poder colocar mais dinheiro em sua poupança. A maioria das pessoas quer mesmo ter um futuro melhor. São poucos que não pensam e não desejam isso. Estuda-se muito, anos e anos sentado em um banco de escola, tarefas, trabalhos, provas, para se ter uma profissão melhor no futuro. Trabalha-se muito, todos os dias, muitas horas, para se ter um bom salário, subir na carreira e aí ser alguém melhor, no futuro. Juve, seu apelido, não era diferente, até exercícios como andar, jogar bola, nadar ele fazia, e para que? Para ter e continuar com saúde no futuro. Sempre pensando lá na frente. Protegendo-se das intempéries da vida. Ansioso. Antecipando-se aos fatos e impondo sua vontade de perpetuação. Mas, como a maioria das pessoas é, Juve acreditava ser eterno, que não iria morrer, tratava das coisas como tudo se resolvesse aqui, nesse corpo e nesse mundo. Juventino cuidava somente do perceptível, da matéria e nada do espírito. Louvável são as pessoas que agem como a formiga (lembram-se na fábula da cigarra e a formiga?). Merecedoras de parabéns são as que guardam pensando no amanhã. São os chamados estrategistas, esses normalmente ficam remediados ou até ricos, pois sabem poupar. Mas o que pesa na balança, nesses exemplares cidadãos, é que deixam muito a desejar quando o assunto é espiritual, quanto á eternidade. Esses doutores em economia agem como se fosse viver para sempre. Quando todos sabem que a morte é certa. Como podem deixar tão importante assunto que é a sua continuidade à mercê do entendimento de outros. Porque não buscam também aprofundar no assunto do espírito. Afinal esse corpo só é uma das nossas moradias. Juventino não entendia que o seu corpo era apenas uma de suas casas, e nessa iria ficar muito pouco, assim como todos nós. Insensível, não dava a devida importância para a sua morada eterna, que não é o cemitério Cristo Rei. Como Juventino, a maioria de nós, agimos assim, imediatistas, pensando só no agora. Deixando os outros decidirem por nós. Pensarem por nós. Juventino era assim, é assim, e pelo jeito, continuará sendo assim. Coitado, tomara que quem pense e decida por ele, esteja certo. Ô homem burro esse, sô!
Castro Lima
Enviado por Castro Lima em 16/10/2009


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