Castro Lima

Crônicas, contos e causos

Textos

O anjo da morte
Destinado e determinado o anjo espreitava, sabia o que fazer. A vítima era Jorge, homem com percepção feminina, intuição que de tão alta, já não era sexto, mas sétimo sentido. Pressentiu que algo o esperava para aquele dia e não era bom. O tremor que lhe sobreveio e o fez arrepiar, não teve dúvidas, era o dia da sua morte. Só não conseguiu sentir de que forma seria. A ansiedade acometeu-lhe, mas a dominou, pensamentos e atos, todos defensivos, estratégias para evitar qualquer acidente, tudo isso e mais um pouco foi o que Jorge fez para tentar não sucumbir diante da morte. O anjo não contava com tanta sensibilidade, a tal ponto de quase ser visto por Jorge, todos sabem que não se vêem anjos assim tão facilmente, ainda mais o da morte. Vestido com um sobretudo cinza escuro, uma espécie de camiseta preta, calça e botas da mesma cor. Tinha os olhos vermelhos como fogo e as mãos gélidas e extremamente fortes. Na esquerda tinha um cajado, pesado, de metal, talvez na cor chumbo esverdeado, talvez, porque não se podia afirmar. Alto, uns dois metros, ombros largos, peitoral forte também. Passos largos, corpo ereto. Aparecia num instante e noutro já não estava mais, sem fazer barulho, sem abrir portas. Assustador, mas invisível. Um toque e o escolhido podia morrer de enfarte, parada respiratória, tosse, até mesmo engasgo ou sofrer um acidente. Era capaz de colocar pessoas escolhidas para um mesmo dia em um avião e fazer o serviço de uma vez só. Ou mesmo escolher aqueles que morreriam num atentado à bomba. Talvez seja por isso que algumas pessoas perdem o avião ou faltam ao serviço e por isso escapam do anjo, porque não era o seu dia.  O anjo não falava, grunhia, falava sim só se fosse muito necessário, aí tomava a voz emprestada de alguém para alcançar seu objetivo. Tinha poderes, muitos, só não mais que o Anjo da Luz. Jorge escolheu não dar chance para sua partida, tirou de pauta tudo que podia facilitar seu falecimento. Não dirigiu, não saiu de casa, não comeu, não ligou nem a televisão, ficou no máximo na sala e de lá para o quarto. Pensava com seus botões que se passasse daquele dia, estaria salvo e teria muito mais anos para continuar em sua vida que tanto amava. Estava bem de saúde, estava em ótimo estado mental, financeiro e emocional, tudo cooperava para que ele conseguisse viver até a velhice. A fome e a sede o apertavam, mas receoso, agüentava quieto e sem muito alarde. Já eram dez horas da noite. O anjo que nunca se impacientava, dessa vez, preocupou. O vivo quase morto estava muito vivo, até demais. Pela fome não morreria, de acidente só se a casa caísse em cima dele, mas aí seria uma covardia, o anjo era da morte, mas esse não era covarde a tal ponto. Tinha que ser algo mais nobre. Aonde já se viu anjo da morte com nobreza? Mas esse tinha tal capricho. A morte teria, então, uma seqüência lógica, algo assim com começo, meio e fim. Até porque serviço bem feito valia muito mais para sua graduação. Com seus olhos de fogo olhou além do que se podia ver, buscou o ponto fraco de Jorge. Já era quase meia noite, e se não morresse no dia marcado, então a vítima teria o dobro de sobrevida e o anjo um castigo horrível por ter falhado. Em sua busca encontrou o medo e a ansiedade bem próximas, lá dentro da mente de Jorge, agora teria que fazê-los entrar em seu coração, aí sim conseguiria fazê-lo ir dessa para pior. Primeiro o anjo atacou a mente de Jorge com pensamentos sobre a sua falta de líquido, desde cedo não tinha bebido água, resolveu ir até a cozinha, antes que fosse acometido de desidratação, ao passar pelo corredor viu seu gato, deitado dormindo, imaginou se aquele animal pudesse atacá-lo, imaginou o bicho tornar-se maior, foi ficando apavorado, nem bebeu a água direito, trôpego entrou no quarto, fechou a porta, deitou-se, o bichano tinha entrado também, miou, a adrenalina de Jorge foi a mil, taquicardia, sudorese, pegou um taco de beisebol que sempre tivera ao lado da cama, o coitado do gato deitado, a tacada certeira, foram-se as sete vidas de uma vez só, na meia noite em ponto. Novo dia começando, Jorge vivinho da silva, mas o anjo não foi de mãos abanando, e era isso que importava.
Castro Lima
Enviado por Castro Lima em 16/10/2009
Alterado em 25/01/2010


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